
Passaram-se noventa anos desde
uma das perseguições anticlericais mais violentas da história moderna: aquela
que se desencadeou na Espanha a partir de 1931, com a expulsão das ordens
religiosas, a laicização do ensino e os primeiros ataques a igrejas e conventos.
Com a Guerra Civil Espanhola
(1936-1939), o ódio contra a Igreja explodiu: igrejas incendiadas, imagens
sagradas profanadas, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos assassinados apenas
por usarem uma cruz ou viverem segundo o Evangelho. Foram massacradas mais de sete
mil pessoas entre bispos, sacerdotes e religiosos; centenas de igrejas foram
destruídas; até mesmo crianças foram executadas por terem ido à Missa. Não
foram perdas de guerra, mas assassinatos cometidos por ódio à fé — exatamente
como Jesus anunciara: « E sereis odiados por todos, por
causa do meu nome; mas quem perseverar até ao fim será salvo» (Mc 13,13).
Para a Igreja, o martírio não
é uma tragédia, mas um dom: o mais elevado testemunho de amor a Cristo. Muitos
dos mártires espanhóis de 1936 já foram beatificados, e alguns canonizados.
Também a nossa Ordem
Hospitaleira pagou o seu tributo, com 95 confrades assassinados in odium
fidei (por ódio à fé). Beatificados foram 71 em 1992, entre eles: Braulio
Maria Corres, Federico Rubio e seus companheiros; 24 em 2013, incluindo
Maurizio Íñiguez de Heredia e seus companheiros. Os nossos religiosos morreram
não apenas pela fé em Cristo, mas também pela fidelidade à missão de cuidar dos
doentes, até ao sacrifício da própria vida.
Permanecem comoventes os
testemunhos daqueles dias. Um dos
carrascos do Beato Juan Bautista Egozcuezábal Aldaz conta: «Dissemos-lhe que
blasfemasse o nome de Deus e a Hóstia divina, mas o religioso nem sequer nos
respondeu e, quando percebemos que estava a rezar, fuzilámo-lo». Tinha 45 anos.
Frei Francisco Saverio Ponsa Casallach, com apenas vinte anos, ao ser avisado
do perigo que corria, respondeu: «A morte não me assusta, estou preparado; se
vierem e se for vontade de Deus, darei a minha vida com alegria!». Antes de ser fuzilado, pediu
apenas alguns minutos para rezar.
Os mártires não odeiam: o seu
sangue é semente de reconciliação. Morreram
perdoando e ensinam-nos a perdoar, e a rezar pela conversão dos nossos
perseguidores e inimigos de hoje. Afinal, a época do martírio nunca terminou: ainda hoje, no mundo e também
no Ocidente, muitos cristãos arriscam a vida por causa da sua fé.
O exemplo destes mártires
continua a ser um desafio a viver em comunhão com Cristo: a única e extrema
resposta cristã ao ódio e à intolerância, uma força de reconciliação, perdão e
paz.